Moradores de comunidades da zona norte de São Paulo revelam quais peças estão em alta e são fundamentais para um look “chavoso”

 

 

“Eu tô cyclonado, meia na canela”… O verso da música Cyclonado, de MC Lan, não é apenas um sucesso dos bailes de funk das periferias: ele reflete um estilo de se vestir que tomou conta das quebradas de São Paulo.

A Cyclone, citada pelo músico, é apenas uma das marcas que compõem o visual de muitos jovens que gostam de impressionar com as roupas – seja para o dia a dia ou para curtir os tais bailes – e que, inclusive, se inspiram em funkeiros, como o próprio MC Lan, na hora de escolher as peças.

Não existe um “manual”, mas a maioria deles sabe qual é o look – ou, como eles mesmos dizem, o “kit” – que mais faz sucesso.

Há uma certa unanimidade quando consideramos as marcas mais usadas entre esses jovens – eles, geralmente, gostam das mesmas grifes -, e uma característica quase nunca muda: a maioria não é nada barata.

Os tênis mais amados são, sem dúvidas, os da marca Mizuno, que podem chegar a custar até R$ 1.500.

Óculos de sol dificilmente são de outro modelo que não seja o famoso Juliet, da Oakley, encontrado por valores entre R$ 500 e R$ 1.500. Os bonés preferidos também são da marca estadunidense e custam até R$ 250.

As camisas polo, camisetas, bermudas e calças, por sua vez, variam entre Lacoste, Brooksfield, Polo Play e Cyclone: todas consideravelmente caras.

Grande parte dos jovens afirma comprar as roupas em shoppings e lojas online e, apesar dos altos preços, faz questão de produtos originais e não se rende a réplicas.

Conversamos com moradores de comunidades da zona norte de São Paulo, principalmente dos arredores da Favela da Marcone, na Vila Maria, para saber mais sobre a moda que “faz a cabeça” da quebrada. Confira a seguir:

Rogério Diniz, 21 anos

Rogério trabalha como auxiliar em uma transportadora e mora na Cidade Nova, no Parque Novo Mundo

 

“Estou presente em quase todos os bailes e gosto de manter minha imagem ‘com postura’, por isso, procuro sempre me vestir da melhor forma que eu puder. E as ‘novinhas’ também gostam, né? A opinião delas é muito importante. A gente se veste da maneira que a gente se sente bem, mas também é para chamar a atenção delas”

Influências

“Nós costumamos sempre olhar os caras de classes ‘mais nobres’, e a Lacoste é uma marca que hoje em dia está ‘em peso’ (em alta). A Oakley também, todo mundo quer. Essas são as marcas que eu mais gosto de usar – claro, com um Mizuno no pé. Acho que a mídia também impõe essas coisas de marcas para nós da periferia, daqui e de todas as quebradas. A gente vê passando na TV, na internet, gosta e quer estar bonito da mesma forma que eles”

A moda é nova?

“Não. Me visto assim, nesse estilo, desde criança. Cresci na comunidade vendo as pessoas se vestindo dessa maneira, e isso acaba se tornando até um costume. É uma questão cultural, e me fez ser quem eu sou hoje”

Kaique Gonçalves, 22 ano

Kaique é gerente de vendas da produtora musical Elseguinte e mora na Vila Ede

 

Os bailes funk e a moda

“Fim de semana tem bastante baile funk na favela, a gente costuma ir na Marcone, Jardim Brasil, onde ‘cola’ [vai] todo mundo, todos os amigos. A gente se diverte ali, toma um gole, conversa e dá risada. Hoje, como o funk invadiu quase todos os públicos, vai bastante gente de outros gêneros, mas a maior parte segue mais ou menos o mesmo estilo. Se você reparar, quase todo mundo vai com um tênis Mizuno, um boné da Oakley, uma camisa polo”

Além da periferia…

“O funk, inclusive, influencia muito o jeito de todos aqui se vestirem. Porque as crianças, por exemplo, já começam a ouvir desde cedo, dentro de casa. Então elas querem ter e usar tudo o que ouvem nas músicas. E isso está aumentando. Quanto mais o tempo passa, mais você vê pessoas nesse estilo, nesse jeito de se vestir, tanto que hoje em dia não é só na periferia que você vê isso: se você vai em outros lugares, também vê as pessoas com as mesmas roupas que a gente usa na favela”

Ítalo Lima, 16 anos 
 Ítalo é funkeiro e mora na Vila Ede
Ítalo é funkeiro e mora na Vila Ede

Funk: atuação além do estilo

“As redes sociais influenciam muito na maneira que a gente se veste e vive. A gente vê eles [personalidades do funk] com carro, moto do ano, Mizuno no pé… e quase ninguém da comunidade tem uma boa condição financeira. E os funkeiros influenciam até nisso… os moleques veem eles ‘estourando’ e se sentem incentivados a fazer um som, uma música, para conseguir isso também. Além da questão do estilo, essa é a influência que eles têm na favela”

Marcas: Custo x Benefício

“Na minha opinião, vale a pena gastar tudo isso em um tênis, por exemplo, porque hoje em dia você é julgado por aquilo que você tem, e quando você usa uma peça como essa as pessoas já pensam: ‘Olha, ele tá de Mizuno!’. Além disso, esses tênis duram bastante e são bem confortáveis”

Impressões sobre outros estilos

“Sendo bem sincero, quando vejo, aqui na quebrada e nos bailes, um cara com um estilo totalmente diferente, acho estranho, né? Cada um é cada um, não podemos julgar, mas, que é estranho, é”

Jonathan Satiro, 22 anos

Jonathan Satiro, ou DJ Sati, mora na Vila Maria Baixa

 

“Eu sou tranquilo, uso coisas mais simples, mas gosto de um diferencial, tipo camisetas de times, ‘bermas’ [bermudas] d’água. Não sou muito vaidoso, mas também não vou colocar um ‘kit’ zoado para sair na rua; coloco um legal, mas sem extravagância”

Afinal, roupas de grifes são tão importantes assim?

“Tem gente que tem Mizuno, mó ‘chave’ [de chavoso, gíria que, de acordo com eles, tem quase o mesmo significado que ‘maloqueiro’], mas tem gente que não usa um kit tão caro e fica mó ‘chave’. O que importa é a personalidade da pessoa. Mas acho que não pode faltar uma correntinha (joia) e um boné da Oakley”

Música x Atitude

“Surgiu uma música do MC Lan em que ele falava sobre a marca Cyclone, aí muita gente aderiu à moda. Isso não me influencia, mas boa parte das pessoas acaba sendo influenciada pelo funk. Mas eu não… influência, para mim, é tipo quando surge uma marca nova, como a Gucci. Só que a Gucci não tem nem como comprar, né? Porque o negócio é caro demais, mas é mó ‘chave'”

Salatiel Ferreira, 19 anos 

Salatiel também é DJ e mora no Parque Novo Mundo

 

“Sou muito vaidoso, até meus amigos falam que eu demoro muito para me arrumar. Faz tempo que me visto assim, nesse estilo, porque sempre gostei muito. Nos bailes, a maioria das pessoas se veste do mesmo jeito, com esse estilo ‘maloca’. Acho que isso é uma coisa da comunidade, é cultural. Você cresce vendo as pessoas assim, e acaba seguindo o mesmo estilo que elas

Erick Bernardo, 21 anos 

Érick trabalha como DJ e promotor de eventos

 

Roupas caras: status ou conforto?

“Não pode faltar o boné da Lacoste e um tênis bacana. Se você estiver com esses dois, qualquer roupa fica tranquila. Hoje em dia, o pessoal olha mais para o tênis e para o boné, ninguém olha muito para o que você está vestindo, se é uma blusa ou uma bermuda ‘da hora’. Se estiver com Mizuno no pé, você é rei, é o mais ‘zica’. O pessoal está vendo assim hoje em dia, por isso que tem muita gente que compra esse tênis. Você vai na favela e só vê Mizuno, é febre de pobre. Pobre não pode ver nada caro que quer comprar. Tem muito mais a ver com a questão do status, mas também é muito confortável”.

Inventando moda… ou não

“Às vezes você vai usar um negócio achando que tá inovando, que ninguém tem, mas aí vai no baile e tem cinco caras usando a mesma coisa. Se não é do mesmo modelo, é da mesma cor, e vice-versa. Na favela, hoje em dia, está tudo meio igual”

Wallace Mota, 21 anos

Wallace é mais conhecido como MC Nego da Marcone e, além de funkeiro, é cabeleireiro
“Sou MC, então, além de frequentar, eu sou um dos causadores do baile. Geralmente, a galera vai com roupas muito parecidas, logicamente não 100%, mas um vai ‘ligando’ o outro. Até porque todo mundo ouve as mesmas músicas, que falam as mesmas coisas, então acaba que todo mundo leva o mesmo estilo de vida – e de roupas. As letras das músicas geralmente citam bastante a forma de o funkeiro se vestir. Aqui, todo mundo gosta de grife. A qualidade das roupas realmente é boa, mas isso só chegou até a gente da favela por causa de status”
Fonte: R7
Carregar Mais Artigos Relacionados
Carregar mais por Bcn

Veja Também

Golpe contra aposentados é aplicado por telefone

Aposentados devem ficar em alerta para golpe (Fotoarena/Folhapress) Estelionatários estão …