Lovren foi um dos que entoaram cânticos nacionalistas (Foto: Getty Images)

Durante a Copa na Rússia, pelo menos dois episódios envolvendo questões políticas geraram polêmicas, causadas por jogadores croatas

 

 

A chegada da Croácia à final da Copa do Mundo na Rússia despertou sentimentos discrepantes em torcidas do mundo todo — e os motivos vão muito além do futebol. De um lado, há a empolgação de ver a seleção croata disputando a taça pela primeira vez na história. Do outro, entram em cena as polêmicas envolvendo um time fortemente criticado por manifestações ultranacionalistas que vêm de muito antes do torneio.

Durante a Copa na Rússia, pelo menos dois episódios envolvendo questões políticas geraram polêmicas, causadas por jogadores croatas. Na vitória sobre a Argentina, na primeira fase, jogadores celebraram o resultado cantando trechos da música Bojna Cavlogavle, da banda ultranacionalista Thompson.

Em outro episódio, o zagueiro Domagoj Vida, após a vitória sobre a Rússia, apareceu em um vídeo comemorando com a frase “Glória à Ucrânia”, em um momento em que ambos os países, Rússia e Ucrânia, se mantêm em guerra, pelo controle de algumas regiões como a Criméia.

Os croatas nutrem uma simpatia pela causa ucraniana, pelo fato de os dois países, Croácia e Ucrânia, estarem afinados com o Ocidente, em oposição a valores eslavos da Sérvia e da Rússia.

Na opinião de Demetrius Pereira, especialista em Relações Internacionais e professor de Estudos Europeus da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), este tipo de manifestação se explica pelo fato de a Croácia ser um país jovem. A nação se tornou uma república democrática somente em 1991 — quando declarou independência da antiga Ioguslávia.

“Em nações novas, existe uma tendência a acontecerem mais manifestações nacionalistas, porque o povo ainda procura firmar sua identidade na comunidade internacional. A Croácia também deve estar buscando sua identidade no esporte e no futebol, desta forma, os jogadores acabam se manifestando de forma mais nacionalista”, pondera o especialista.

Não à toa, o técnico croata Zlatko Dalic citou o nacionalismo como uma das principais motivações de seu time para vencer a Inglaterra nas semifinais em uma entrevista dada antes do jogo. Pereira considera improvável que a intenção de Dalic tenha sido exacerbar alguma ideologia política, mas lembra os efeitos indiretos da declaração.

Ao longo dos séculos, ao Croácia foi um dos países que se mantiveram sob domínio de impérios, como o otomano e o austro-húngaro. Tendo experimentado poucos momentos de autonomia até então, a ocupação, pelo eixo nazista, da antiga Iugoslávia, da qual fazia parte a Croácia, exacerbou o nacionalismo, já que o país se tornou independente, sob a tutela nazista.

Com o presidente Ante Pavelic, era comandado pelo Ustasha, e a intensificação do nacionalismo levou a um regime de poressão a judeus, sérvios e ciganos, que foram levados a campos de concentração. Sob o comando do Partido Comunista, do marechal Josip Broz Tito, o movimento de resistência antifascista surgiu no início de 1941. Tito assumiu o poder na Iugoslávia após a derrota nazista e manteve o país integrado de maneira forçada, por mais de 50 anos.

Após o fim da União Soviética, movimentos nacionalistas voltaram a se espalhar pela região. Os croatas voltaram então e lutar pela independência, em uma guerra contra o Exército Popular Iugoslavo, entre 1991 e 1995, na qual obtiveram êxito. Com a nova independência, velhos sentimentos preconceituosos, xenófobos e racistas voltaram a compor o nacionalismo de boa parte da população. A Croácia até hoje é acusada por muitos de se aliar ao nazismo e preservar tais valores.

“Às vezes o jogador ou técnico não quis exprimir uma posição nacionalista politicamente falando, mas é importante reforçar que o nacionalismo, quando levado ao extremo, começa a ficar preocupante. Esse extremo já é identificável em movimentos que se espalham pela Europa — não só no leste europeu — e são vistos de forma muito negativa, como o neonazismo e a xenofobia. A consequência são cada vez mais conflitos de ordem política e a não aceitação do outro, do diferente, do estrangeiro.”

Jorge Fernández, professor de história contemporânea na UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul), conclui que a Rússia 2018 evidenciou a impossível dissociação entre esporte e política. “O futebol não é apenas um esporte, um entretenimento — assim como também não é apenas um negócio”, diz Fernández.

“A Fifa proíbe este tipo de manifestação nos jogos, mas é muito difícil separar política de esporte. Quem disputa o torneio são países — e países são entes políticos”, comenta Demetrius Pereira, da ESPM.

Histórias antigas

O primeiro dos episódios controversos protagonizados pela Croácia se deu em 2013, quando as comemorações pela qualificação da seleção para a Copa no Brasil foram acompanhadas por cantos neonazistas entoados pelo torcedores. À época, o zagueiro Josip Simunic engrossou o coro — e acabou suspenso por dez jogos pela Fifa.

Dois anos depois, durante o Campeonato Europeu, os torcedores croatas entoaram insultos racistas durante um duelo contra a Noruega e a seleção acabou punida com um jogo a portas fechadas e 50 mil euros de multa pela Uefa. O castigo não rendeu tanto resultado, já que uma suástica foi pintada no gramado durante a partida sem público e terminou por acarretar ainda mais processos disciplinares contra a seleção balcânica por parte da instituição de futebol europeia.

Fernádez, da UFMS, chama a atenção para o risco de generalizações a partir de episódios envolvendo figuras de projeção como os jogadores da seleção croata.

“A partir do momento em que onze jogadores estão em campo carregando um símbolo nacional, eles são representantes daquilo que seria nacionalidade toda. Cada ação tem repercussão como se fosse representativa de um todo — ainda que não seja, porque cada país tem uma diversidade incrível de pensamentos”, diz o professor. “Além disso, o ressurgimento de movimentos ultranacionalistas é um fenômeno que acontece no mundo todo, não apenas na Europa.”

Fonte:: R7

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