Por Mauro Ferreira

Chega a ser tristemente irônico que o compositor carioca Nilton de Souza (15 de outubro de 1936 – 10 de fevereiro de 2018) tenha saído de cena em um sábado de Carnaval. Porque Niltinho Tristeza, como o artista se fez conhecer no meio musical, foi compositor ligado à folia. É provável que, neste Carnaval, muitos foliões já tenham cantado ou ainda vão cantar em blocos ou bailes o samba Tristeza, título de maior projeção do cancioneiro desse compositor que soube ligar o nome a um sucesso que extrapolou as fronteiras brasileiras.

Também cantor e violonista, Nilton morreu ontem, vítima de complicações decorrentes de câncer no vulcão, no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu a maior parte dos (incompletos) 82 anos de vida.

Se Nilton veio ao mundo em 1936, Tristeza nasceu em 1963 da inspiração do compositor, mas é injusto atribuir à contribuição do parceiro Haroldo Lobo (1910 – 1965) ao ato somente de encurtar o samba que, na forma original, bem mais longa, foi cantado por Niltinho no bloco Boêmios de Botafogo, agremiação carnavalesca do bairro carioca onde o compositor nasceu. Também carioca, Haroldo Lobo burilou o samba, enxugando uma parte e acrescentando trecho de antiga melodia de autoria dele.

Foi nessa versão revista e reduzida que Tristeza ganhou o Brasil a partir do Carnaval de 1966, três anos após a composição do samba. A gravação original foi feita em 1965 pelo cantor carioca Ary Cordovil (1923 – 1981) para o LP coletivo intitulado Carnaval 1966 (RGE). Devido ao sucesso da música na folia daquele ano, Tristeza ganhou outras vozes ainda em 1966, como as das cantoras Elizeth Cardoso (1920 – 1990) e Maysa (1936 – 1977).

Contudo, o registro que contribuiu para consolidar o estouro do samba em futuros Carnavais foi feito também em 1966 na voz do caloroso cantor paulista Jair Rodrigues (1939 – 2014). Daí em diante, o samba ganhou o Brasil e, na sequência, o mundo em gravações de Sergio Mendes e Astrud Gilberto, feitas na segunda metade da década de 1970 na versão em inglês escrita pelo letrista norte-americano Norman Gimbel e intitulada Goodbye sadness.

 

O cantor, compositor e violonista Nilton de Souza (Foto: Reprodução)

O cantor, compositor e violonista Nilton de Souza (Foto: Reprodução)

Niltinho Tristeza nunca mais teria outro sucesso de alcance mundial, mas o nome do compositor está nos créditos de outra obra-prima do repertório carnavalesco. Em 1988, Nilton fez em parceria com os compositores Preto Jóia, Vicentinho e Jurandir o samba-enredo Liberdade! Liberdade! Abra as asas sobre nós para a escola de samba Imperatriz Leopoldinense, de cuja ala dos compositores Niltinho fez parte (ele compôs outros sambas que foram para a avenida).

O samba de 1988 venceu o concurso interno da agremiação – sediada no bairro carioca de Ramos onde o compositor viveu boa parte da vida – e rendeu à escola o título de campeã do Carnaval do Rio de Janeiro em 1989. Em 2013, o samba-enredo – já considerado um dos clássicos do gênero – voltou à cena como tema de abertura da premiada novela Lado a lado, exibida pela TV Globo no horário das 18h.

Entre um sucesso e outro, Niltinho compôs relativos hits carnavalescos como Chinelo novo (1970), parceria feita com João Nogueira (1941 – 2000) para o bloco Cacique de Ramos. Os compositores repetiriam a parceria para o bloco carioca em 1971 com a criação de Nosso Carnaval de amor, samba de menor projeção dentro da folia de Ramos.

Com cerca de 30 músicas gravadas e 150 compostas, Niltinho se juntou a outros compositores de escola de samba no álbum coletivo Os Meninos do Rio (Carioca Discos, 2000) e firmou parcerias com artistas emergentes como Leandro Fregonesi, com quem compôs No compasso do meu coração (2004). Contudo, é inegável que o nome de Nilton de Souza permanecerá para sempre ligado – literalmente – ao samba Tristeza. Até porque, se o compositor foi embora, Tristeza continua imortal na memória do Carnaval.

Fonte: G1

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