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CSA, o clube já presidido por Collor que escalou quatro divisões em tempo recorde graças a um mecenas

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Político mais rico do Alagoas, o presidente e agropecuarista Rafael Tenório financiou os acessos seguidos do clube e quer colocá-lo entre os 10 maiores do Brasil até 2023

 

Foram quatro anos mais memoráveis do que o resto dos 105 vividos pelo clube. O Centro Sportivo Alagoano, entidade centenária de Maceió que não acumula em sua história mais do que títulos estaduais, uma série C e 11 participações na elite do futebol brasileiro, estava sem divisão profissional em 2015, afundado em dívidas. Naquele ano, Rafael Tenório, um empresário já na casa dos 60 anos e bem-sucedido no agronegócio, venceu a eleição para presidente do clube. Tenório resolveu implantar o modelo de gestão empresarial, ao qual estava acostumado, para resgatar a equipe; investiu dinheiro do próprio bolso, adotou um sistema meritocrático de bonificações e decidiu que escolheria as escalações junto com o treinador. Prometeu colocar o CSA na segunda divisão dali um quadriênio.

De lá para cá, os azulinos conquistaram três acessos seguidos, feito inédito no Brasil e, superando as expectativas do presidente, jogarão a primeira divisão em 2019. Rafael Tenório também colheu frutos: foi eleito como suplente ao Senado Federal por Alagoas na chapa de Renan Calheiros (MDB) nas Eleições 2018 em sua primeira empreitada como político. No entanto, garante não querer ser senador. “Meu objetivo é fazer com que o CSA esteja entre os dez maiores clubes do Brasil em cinco anos”, afirma.

“A carreira política não é o meu perfil. Eu nunca tive ambição nenhuma e topei compor o projeto do Renan [Calheiros] porque acho que posso ajudá-lo como empresário. Mas pode acontecer de eu precisar assumir o Senado e, então, terei de me afastar da presidência do clube”, confessa Tenório. O mandatário diz que já recebeu vários convites para cargos políticos, mas recusou todos e só se filiou ao MDB porque foi convidado por Renan como “amigo”. A outra suplente do senador eleito foi Silvania Barbosa, esposa de Marcos Barbosa, deputado estadual e presidente do maior rival do CSA, o CRB. Juntando os dois maiores clubes do estado, Calheiros, cuja família também é extremamente popular em Alagoas, foi reeleito com 23,88% dos votos.

CSA na política
A relação do CSA com políticos influentes de Alagoas não começou com Rafael Tenório sendo suplente e nem com a candidatura não eleita do atual vice-presidente Omar Coelho ao Senado em 2014; ela é notória desde os anos 1970. No começo desta década, Fernando Collor de Mello, então com 24 anos, assumiu a presidência do clube alagoano. Entre outros feitos, organizou um jogo despedida como homenagem para Garrincha e estava no comando quando o time subiu pela primeira vez à série A, que disputou em 1974. Collor deixou a presidência para ser prefeito de Maceió e, depois, governador do Alagoas e presidente do Brasil. Nos anos seguintes, Augusto Farias e Cláudio Farias, irmãos do ex-tesoureiro da campanha de Collor à Presidência, PC Farias, foram presidentes do CSA. Arnon de Mello, filho do ex-presidente, Euclydes Mello, primo, e João Lyra, sogro do irmão Pedro Mello, também ocuparam cargos diretivos relevantes no Azulão. Geraldo Bulhões, ex-governador de Alagoas entre 1991 e 1995, foi presidente do conselho também na década de 90.

Renan Calheiros e Rafael Tenório.

Renan Calheiros e Rafael Tenório.

Rafael Tenório critica: “Só posso dizer que, na relação que esses nomes tiveram com o CSA, o único que saiu prejudicado foi o CSA”. “Muito do amadorismo com o qual o clube foi gerido antigamente se devia a esses políticos”, concorda Ronaldo Spíndola, bancário e torcedor azulino. “Essa influência da política é algo cultural no Estado, tanto que o presidente do CRB é deputado. Quando nosso estádio [Rei Pelé] seria interditado, o governador interveio. Então o nosso presidente precisa ter essa porta aberta com a política”, pontua o torcedor. Atualmente, CRB e CSA dividem o estádio Rei Pelé. O mandatário azul e branco, no entanto, rechaça a ideia de ter “negócios” com qualquer governo por considerar “muito perigoso”. E Spíndola não acha que Tenório ou Omar Coelho usem o CSA como palanque político: “Eles pensam no bem do clube”.

Pensando no “bem do clube”, Tenório confirma que injetou dinheiro no caixa interno. “Procurei credores, negociei dívidas e fiz acordos com o Tribunal Regional do Trabalho. Tudo do meu bolso. O CSA não tinha receita nenhuma, nem conta bancária”. O presidente, entretanto, não revela quanto dinheiro gastou. Para o Tribunal Superior Eleitoral, antes das eleições, ele declarou ter doado 500.000 reais à campanha de Renan Calheiros (quase 20% do total gasto pelo senador) e possuir, em bens, pouco mais de 71 milhões de reais —entre eles, 59 apartamentos, dez terrenos e nove casas—, o que faz dele o político mais rico do Estado a participar do processo em 2018 e o credencia como mecenas do time azulino.

Tenório argumenta que o dinheiro gasto está nas despesas do clube, que constam “quando publicamos nosso balanço financeiro”. Segundo está na Lei Profut, sancionada em 2015 para renegociar os débitos dos clubes de futebol brasileiro, as entidades que aderirem aos benefícios— e o CSA está entre elas— são obrigadas a publicar demonstrações de suas atividades econômicas. O artigo 46 da Lei Pelé, que rege a legislação do desporto nacional, condiciona o acesso a recursos e patrocínios estatais à divulgação dos resultados financeiros —a Caixa Econômica Federal patrocina o CSA, o que também obriga os alagoanos a divulgarem a movimentação bancária. Rafael Tenório afirma que o balanço financeiro está publicado no site oficial do clube. Ao não encontrá-lo, a reportagem entrou em contato com a assessoria, que afirmou que o balanço foi retirado do ar por conta de uma análise interna. Ainda foi feita a promessa de que o documento voltará ao site em janeiro.

“A torcida está tão eufórica que não há cobranças nesse sentido. Não temos como mensurar quanto o clube ainda deve, porém confio na diretoria que só nos trouxe alegrias”, comenta Spíndola, que acompanha o CSA há mais de 20 anos. A injeção financeira de Tenório pode ser considerada um empréstimo, uma vez que o presidente quer cobrar o passivo no futuro, “quando o clube tiver receita suficiente”. Ele também ressalta que o ano na série B já foi o suficiente para a gestão se tornar autossustentável, sem a necessidade do aporte, e que o planejamento para a série A seguirá na mesma toada.

Influência nas escalações
Apesar de garantir que a palavra final é do treinador, Rafael Tenório afirma que faz reuniões frequentes com a comissão técnica sobre a escalação e como a equipe vai jogar. “Discutimos democraticamente. É uma gestão compartilhada”. Marcelo Cabo foi o treinador durante todo o ano de 2018, e comandou o vice-campeonato da segunda divisão com jogadores do calibre de Neto Berola, Walter, Jhon Cley e Didira. O presidente garante que esse e outros métodos, como a bonificação e premiação de acordo com méritos e resultados, foram fundamentais para os três acessos seguidos. Em troca, a exigência é de comprometimento do atleta contratado.

“Eu profissionalizei o clube. Posso te assegurar que o CSA não subiu para cair. Digo convicto que já somos referência nacional pela gestão moderna”, conclui o otimista presidente antes de prometer também que o clube alagoano estará no top 10 brasileiro daqui cinco anos. “Estou tranquilo porque confio que esse case de sucesso vai permanecer. Vamos ser a nova Chapecoense”, profetiza Ronaldo Spíndola, lembrando que o clube de Chapecó também apareceu como surpresa na série A, em 2014, e não foi rebaixado desde então. No entanto, não é preciso ir muito longe para lembrar do Joinville; o clube de Santa Catarina chegou à elite em 2015 com os recursos do empresário Nereu Martinelli, presidente entre 2008 e 2016. Após a saída de Martinelli, o JEC viu sua dívida aumentar em 40 vezes em uma crise que culminou na queda para a série D, que não frequentava desde 2010, na atual temporada. Pelos resultados, os últimos anos do CSA foram históricos. Agora, resta saber com qual exemplo catarinense o futuro azulino irá se parecer.

Fonte: El País

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