“A flauta mágica” é um dos repertórios mais difíceis do século 18 (Foto: Michelli Mandelli/Divulgacao)

Realizado com R$ 50 mil do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) %u2014 boa parte investido em aulas de formações e palestras %u2014, o espetáculo será acompanhado por orquestra de nove músicos sob regência de Rafael de Abreu

 

Quando Janette Dornellas idealizou o 1º Ópera Estúdio da Casa da Cultura Brasília, pensou em produzir, ao final, um espetáculo com vários trechos de obras conhecidas. No entanto, ao fechar o nome dos 17 selecionados para o projeto, se deu conta de que tinha ali o elenco completo de A flauta mágica, uma das óperas mais populares de Wolfgang Amadeus Mozart. Não resistiu. Conversou com o produtor Hugo Lemos e fechou.

É o resultado de quatro meses de trabalho que o grupo apresenta hoje no Teatro da Escola de Música de Brasília (EMB). Realizado com R$ 50 mil do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) — boa parte investido em aulas de formações e palestras —, o espetáculo será acompanhado por orquestra de nove músicos sob regência de Rafael de Abreu.

A cenografia, basicamente o andaime do teatro e projeções, e os figurinos, criados pela própria Janette e costurados com ajuda dos alunos, são simples porque o dinheiro era curto. Mas a oportunidade de ouvir essa ópera pela segunda vez em menos de um ano — o Ópera Estúdio da UnB realizou uma montagem em novembro de 2017 — pode ser comemorada em uma cidade onde a agenda musical raramente abraça esse gênero de produção.

Repleta de árias conhecidas, especialmente aquela cantada pela personagem Rainha da Noite, que exige alguns dos agudos mais difíceis do repertório do século 18, A flauta mágica é também uma história mística e cheia de lições de um período em que a sociedade europeia passava por mudanças importantes.

Quando a peça estreou, em setembro de 1791, em Viena (Áustria), a Revolução Francesa já havia transtornado as monarquias europeias e Mozart estava plenamente mergulhado na maçonaria. A flauta mágica acabou repleta de referências ao episódio que derrubou o absolutismo e de símbolos maçônicos.

Dividida em dois atos, ela tem, de um lado, a Rainha da Noite, ambiciosa e de olho no poder, e do outro, Sarastro, o sacerdote do bem. Os dois vão, obviamente, lutar pelo protagonismo e manipular personagens como os casais Papageno e Papagena e Tamino e Pamina. É uma história de vaidades, paixões e traições, como boa parte dos libretos de óperas. Este, aliás, foi escrito por um colega de maçonaria de Mozart, Emanuel Schikaneder.

O momento mais esperado é sempre o da ária da Rainha da Noite e, para interpretar a personagem, Janette convidou Danielle Dumont, a única profissional do elenco. Originalmente, o papel seria de uma das alunas do grupo, mas um desencontro de agendas impediu a participação.

“Mozart escreveu esse papel para a cunhada, que era uma soprano de coloratura que tinha essas notas super agudas. É um papel muito específico, tem que ser uma soprano com nota muito aguda, o Fá 5, quase o limite da voz cantada feminina”, explica a diretora e cantora.

“É um papel que você tem que ir para o palco muito segura emocionalmente, porque se você estiver abalada, com medo, você vai quebrar o Fá 5”. Mas há outros momentos muito bonitos nessa ópera, como as árias cantadas em coro e todas do primeiro ato.

Durante os quatro meses do Ópera Estúdio, os alunos tiveram aulas de teatro, palhaçaria, construção de personagem e técnica vocal. São capacitações que, segundo Janette, professora da EMB, faltam, de forma geral, na formação dos cantores líricos. Brasília tem dois Ópera Estúdios que funcionam de forma mais permanente — o da UnB e o da EMB — mas, ainda assim, é pouco para a demanda da cidade.

“Eles tiveram todo um trabalho de construção física do personagem, que é uma carência muito grande do cantor lírico. É um período curto, porque, infelizmente, não tem durante o ano todo, mas foram quatro meses de trabalho intenso de corpo, técnica vocal, palestras, fisiologia da voz e aulas de fonética alemã para fazer a ópera em alemão”, avisa Janette, que contou com Francisco Frias para a direção cênica.

A flauta mágica
De Wolfgang Amadeus Mozart. Direção: Janette Dornellas. Neste sábado(11/8), às 19h, e domingo (12/8),às 16h e às 19h, no Teatro da Escola de Música de Brasília (602 Sul). Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia) à venda no www.toibrasilia.com.br/bilheteria.

Fonte: Correio Braziliense

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