Abraham Weintraub já participava do governo, mas deputados e senadores ainda reclamam que não foram ouvidos na hora da escolha

É a segunda substituição feita no governo, depois que o advogado Gustavo Bebianno saiu da Secretaria-Geral da Presidência, e o general Floriano Peixoto entrou

O presidente Jair Bolsonaro colocou a “aliança” na gaveta e encerrou a participação de Ricardo Vélez Rodríguez no Ministério da Educação. A analogia do casamento — utilizada pelo próprio chefe do Executivo na última sexta-feira — era o tom do anúncio esperado para segunda-feira (8/4), quando postou no Twitter a saída do educador e a escolha do novo ministro da pasta, Abraham Weintraub. É a segunda substituição feita no governo, depois que o advogado Gustavo Bebianno saiu da Secretaria-Geral da Presidência, e o general Floriano Peixoto entrou.

A saída de Vélez era tratada como certa no governo e no Congresso. Motivos não faltaram. Considerada uma das pastas mais importantes de todo o governo, o Ministério da Educação esteve mergulhado em brigas internas e decisões polêmicas adotadas pelo agora ex-ministro. As mais recentes foram as que culminaram na demissão, quando o educador decidiu vetar uma prova que avaliaria a alfabetização de crianças e disse que promoveria alterações no conteúdo de livros didáticos para mudar a forma como o golpe militar de 1964 é ensinado (veja quadro).

O trato do educador com os parlamentares era alvo de muitas críticas. É normal que deputados e senadores tentem agendar reuniões com ministros de Estado para apresentar demandas, sejam sugestões ou reclamações. A avaliação feita no Parlamento é de que o ex-ministro escolhia a dedo os congressistas com ideologia política semelhante, e negligenciava o atendimento a quem tinha menos afinidade. Deu errado. Nas últimas semanas, o governo foi bombardeado com reclamações feitas por parlamentares sobre a conduta dele.

Tantas polêmicas em tão pouco tempo tornaram a situação insustentável. Do plano de 100 dias de governo, o Ministério de Educação ficou encarregado de lançar um programa nacional de definição de soluções didáticas e pedagógicas para a alfabetização, com a proposição de método para redução do analfabetismo. Na Esplanada, a crítica é de que nada disso avançou. Pelo contrário. Se tecnicamente Vélez deixou a desejar, politicamente foi ainda pior.

A comunicação era o principal alvo de reclamação. “Pelo menos o novo ministro fala português e entende o Parlamento”, resumiu o líder do Podemos na Câmara, José Nelto (GO). Colombiano, Vélez tinha dificuldade no idioma brasileiro e não se articulava bem com as demandas parlamentares para a educação, pondera. A pouca acessibilidade com o Congresso também é criticada pelo líder do PSC na Câmara, André Ferreira (PE). “É ruim quando tem um ministro que não é acessível. Tudo o que um líder quer é ser recebido com sua bancada para expor problemas e sugerir mudanças nos estados”, destacou.

O problema da falta de atendimento parece, por ora, resolvido. Até ontem, Weintraub era secretário executivo da Casa Civil, pasta responsável por lidar com a articulação política entre o governo e o Parlamento. Pessoas que trabalharam com ele na pasta avaliam que, com três meses à frente da função, ele adquiriu bagagem suficiente para se portar no trato com parlamentares. A análise é partilhada por Nelto e Ferreira.

Na Casa Civil, a leitura é de que o Ministério da Educação também ganha em aspectos técnicos. Weintraub é alguém com bagagem na vida acadêmica e que representa uma linha de capacitação e qualificação técnica para propor as diretrizes de uma gestão que permita reitores e educadores terem as ferramentas da área docente. O perfil dele, dizem, segue o caminho da pacificação, mas com discurso ideológico colado com o do presidente. O novo ministro é um combatente do “marxismo cultural” (veja perfil), porém, adota uma postura discreta. “Não é o jeito do Abraham. A polêmica não ajuda muito na construção do debate com diálogo”, ponderou um interlocutor.

Criticamente

Embora seja uma escolha elogiada, a opção por Weintraub é avaliada criticamente por alguns parlamentares. A leitura é de que Bolsonaro perdeu a chance de ter indicado um congressista. Ainda que a opção fosse técnica, entendem que o presidente da República poderia ter optado por alguém ligado ao Legislativo, mediante consulta aos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e a lideranças partidárias. “Poderia ser uma estratégia para segurar votos e começar a construir a base governista”, justificou um líder.

A cerimônia de posse de Weintraub está prevista para ocorrer às 14h de hoje, no Palácio do Planalto. No Twitter, Vélez evitou criar polêmica e agradeceu a oportunidade a Bolsonaro. “Confio em sua decisão e me despeço desejando ao professor Abraham Weintraub sucesso no cumprimento de sua missão”, declarou. Na mesma rede social, Bolsonaro enalteceu o novo ministro e agradeceu ao anterior. “Abraham possui ampla experiência em gestão e o conhecimento necessário para a pasta. Aproveito para agradecer ao professor Vélez pelos serviços prestados”, disse.

Docentes e analistas políticos avaliam como acertada a troca na pasta. Para o professor Ricardo Gomes, do Departamento de Políticas Públicas da Universidade de Brasília (UnB), a mudança pode trazer impacto positivo. “Vai melhorar se o ministro se preocupar em sentar com a equipe e articular um plano governamental. Quanto mais depressa ele fizer isso e se preocupar em nomear os cargos que faltam, resolver a questão da educação básica, do ensino técnico e as questões de acessibilidade e inclusão, melhor”, analisou. Fonte: Correio Braziliense

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